terça-feira, 6 de junho de 2017

Caleidoscópio

|| || 4 comentários:
A luz da televisão era um caleidoscópio frenético, vibrando luzes sobre a pele oliva. Fazia-a parecer uma joia: De uma beleza pétrea e inalcançável. Ela estava bem ali, a meros trinta centímetros de mim, e minhas mãos eram proibidas de toca-la.Não há nada mais frustrante, sinceramente.
Virei o rosto e fechei os olhos. Conseguia reproduzir sua expressão intrigada em minhas retinas, nublada pela irritante névoa da memória. Ainda assim, eu seria capaz de desenha-la sempre que quisesse, a linha reta do nariz, a curva dramática dos cílios e o leve maxilar que guiava até os densos cabelos. Até o cheiro pálido de um perfume me parecia palpável aquela altura; vinha tão fácil quanto o cheiro da minha própria cama, quanto os traços do meu próprio rosto.
A constatação foi demais. O caleidoscópio me deixava tonta e o álcool parecia ter derretido meu cérebro, o suficiente para capitalizar a estupidez mantida adormecida numa das gavetas de pensamentos perigosos. As trancas estavam oleosas e a chave deslizou fácil, deixando escapar um enxame de borboletas, nós na garganta e pupilas dilatadas. Puro veneno.
Fitei-a de novo e não mais tinha ares de joia. Irene era fumaça, esvaindo-se entre segundos, gestos ambíguos, mãos mornas e palavras de tom duvidoso. Intoxicante a longo prazo e exigindo doses pequenas. Os efeitos eram esperanças penosas e textos mais penosos ainda, além da interminável negociação da verdade que tentava fazer tudo menos penoso apenas para amaciar o que restava do meu ego.
E se nós fôssemos as últimas pessoas do mundo, ainda assim ela não me amaria do mesmo jeito?
Não? Sim? Eu digo negociável.
Reprimi a ânsia de abraça-la e voltei-me para a tv novamente. Irene não tinha movido sequer um dedo, nem parecia ter respirado, quando a mim...
Consciente da minha pequena parada no tempo e das gavetas abertas, sorri.
Um dia, Irene, um dia, quando você tiver esgotado todos os amores infalíveis, os beijos intensos, as promessas vazias e estivermos sentadas mais uma vez nesse sofá, você vai finalmente olhar para mim e ai sim.
Vou poder te tocar.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Clichê apaixonado

|| || 4 comentários:
Meu músculo vital pulsa, manipulável no espaço entre amantes, ele é passível de mortes sucessivas e até não intencionais, é um suicida inconsequente, amargurado pelas trevas dessa juventude embriagada de fantasia_ na fumaça de um cigarro ou num gole de anoitecer. Meu coração, dividido em pedaços, estraçalhado, digo, em frangalhos, recolhe-se para a única alegria distante da mortandade de seus irmãos gêmeos. Ah o amor, me entrego ao teu calor, tua doçura instantânea, me entrego às tuas mãos macias, a tua reciprocidade imaculada. Mantenha-me como uma inocente ninfa nos olímpos de minha vida. Pois tu não és, amor, não és aquilo que te chamam os decrépitos e viciados românticos,contaminados do sofrimento vil, da indecisão entre ser eterno ou ser passageiro, pois amor tu és maior que tudo isto. És maior que a dor de um caixão, do que um continente,do uma troca de olhares desconhecidos, do que uma traição, uma indiferença. Amor... Tu és grande para caber o mundo inteiro em teus braços, os seres humanos é que se imaginam maiores e se dizem incapazes do mais belo dos atos: amar...

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Fantasma

|| || 2 comentários:
Dissolvida na memória veloz e curta
Dessas minhas jovens íris maculadas
Reside,insubstancial e fosco
Um fantasma
Apático, estranho roedor
Roendo de mim os anos e tecendo comigo
O caminho vil dos covardes

Mãos translúcidas,suaves de uma maciez tóxica
Cândida e impossível perfeição
De uma calamidade crua
Que me afoga em fases da lua
E me ilumina conforme as marés
Cala de mim a vontade, a verdade e sem querer
Cala também qualquer maldade, todo poder
Uma semana,duas,um mês,uma década
Há muito tempo me toca o fantasma

O fantasma eu sou,atrás desse véu
Revelação, ardendo pelos poros em inferno
Sinto uma sussurrante calma no terror de escapar
Meu rosto por tanto escondido
Abre-se numa expressão nua, quer a morte quer descansar
Da sina de ser sempre ser desvisto
Ai como dói levantar

Quando eu era vivo, sem fantasma sem véu ainda
Lembro de um flash desconhecido
Do que é ter sangue nas veias
Daquilo que é dor e daquilo que é medo
Chama me de fantasma
Caminharei entre os vivos
Mal sabem que sou
Menos mortal

O que acontece quando um fantasma se olha no espelho
É um segredo que cabia apenas a mim
Mas agora cabe também a ti
O espelho não reflete
E o fantasma triste,inerte
Sonha em desenhar no reflexo
Um olhar imaginário
É um jeito solitário de se achar quem se é

Enquanto rascunho uma conclusão para esse poema
Busco em minha memória um rosto que se adeque a mim
Ao fantasma que sou caminhante e imortal
E no final do poema no ponto final
Acho-me ,porém
Tu nunca me vês.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Terra do Nunca

|| || 6 comentários:
Pegue minha mão, vamos para a terra do nunca. Abra uma das portas encardidas, nesses banheiros sórdidos dos bares, pegue minha mão e voe através da janela. Meus olhos são cristais: límpidos espelhos lilases, te guiando para uma eternidade na cidade insone dos meus braços, oh caminhante confusão, finalmente cessarás de confundir o amor com paixão e a cegueira com a verdade. Tens sorte de me achar, beirando a morte aos desseis anos, de pé em meus saltos altos,cheirando a sua delirante fantasia jovem.
Os demônios vem num frasco de sonhos. E tu me bebes de bom grado. Tu me tocas vívido, me cheiras sem ar. Equilibra-te em mim. A ponta da faca em que piso é sólida somente para pés descalços. E o meu sangra um abundante Nilo celeste.
E é nesse rio que vou te afogar, entre espasmos do teu corpo e entre beijos suplicantes. Nesse canto envenenado te grito um nome estelar e calo tua boca num tocar de língua crua: és um beija flor na minha mão, a falar me em tons gentis as palavras que são guardadas para damas e não para mim. Sou um caco de vidro. Não uma pena. Trate me feito lufada de ar,não feito brisa. Há mais em mim um borralho que uma princesa. Me tenhas como sou:impossível.

domingo, 30 de abril de 2017

Adeus

|| || 4 comentários:
Sobre a cama, respirei fundo, escrevendo cada palavra como se tirasse um espinho do peito. Era a última mensagem, de todas as que eu já mandara nos meus cuidados de preocupação, de doçura e de querer bem, e era um pequeno texto tão amargo que cheirava a café velho, esquecido numa garrafa no canto da cozinha. Fora doloroso, cada resposta,cada mentira desmentida feriu como um tapa, senti a mente encher-se de lágrimas, feito um maremoto de vozes entoando um cântico fúnebre. Lá se vai o corpo de uma amizade tão jovem, as senhorinhas lamentam e fofocam a lascívia do golpe final, eu apenas me recolho no meu canto junto ao túmulo, sou o coveiro resignado na sua tarefa diária de enterrar as decepções e aplaudir ainda o amanhecer de um novo dia. Sou esperança nos finais sórdidos. E no meu cemitério não existem flores, apenas a gradual aceitação de que os mortos assim devem permanecer, e que no fim, quem tem ser forte é você para não sucumbir a tentação de ir abraçar os cadáveres. Mesmo que um dia eles tenham dito eu te amo.

domingo, 23 de abril de 2017

Momento

|| || 2 comentários:
Acostumei-me a deitar a cabeça sobre um ombro imaginário e observar o trânsito e a paisagem se agitarem através do vidro da janela do carro, perguntando-me, fascinada, que se cada pessoa é um universo e se cada lugar tem uma história,quantos indescritíveis romances hão de existir numa simples virada de esquina?

terça-feira, 18 de abril de 2017

Colapso

|| || 4 comentários:
Um colapso no tempo, parando, finalmente estático, num parque agitado, numa roda gigante supersônica de mil quilômetros de altura, sinto uma vertigem ao olhar nos olhos dela, quietos sobre a cama,felizes sobre mim, tristes por mim,raivosos contra mim. O tempo para quando olho nos olhos dela, não figurativamente o tempo de fato, para. O que mais é meu tempo senão o relógio rápido daquelas duas pedras castanhas, minhas jóias da alma? Se elas se fixam em mim, o tempo de fato para. O tempo,de fato, para. 
E por um segundo, sinto-me cair da roda gigante, feito águia atingida por um tiro de espingarda, caçada, displicentemente capturada, caindo para ela numa distância infinita até o chão, para o destino de ser a única coisa em movimento no colapso temporal, o destino de ser uma fenda no universo. 
Se algum dia ela desviar o olhar e eu parar de cair, a roda gigante volta a girar, por enquanto, estou caindo por ela,para sempre e sempre e sempre e sempre...