domingo, 26 de março de 2017

Estrelas

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Uma luz morta, viajando mortífera pelos anos luz do universo
Chega até mim em desapego dóido, sou mais apenas uma testemunha ocular
E aí, então, são mil estrelas, refletindo as luzes de si mesmas
Rezam, feito jóias baratas, por algum brilho único e real
São meus olhos que dão a elas,a beleza de que se gabam
Os poetas, lúdicos brincantes de um carnaval selvagem
São apenas estrelas... Desmereço, obcecada
Não são os olhos dela...
Não são os olhos dela.

Fecho um dos olhos, dou um peteleco em uma estrela,e ela rola cadente pelo céu crepuscular
Os olhos de minha amada permanecem, não correm disperços assim, sem despedidas deixar
Convenço me enfim, resoluta, da ilusão de óptica, da minha estranha conduta
O mundo de ilusões que crio são viagens apocalípticas no seio das nebulosas
São apenas estrelas... São apenas estrelas.
Ai estrelas,será que apenas eu vos enxergo? Serao meus olhos dotados de algum mal torturante Que se põe a imaginar as coisas quem que estas o sejam? Interrogativa análise,metaliguagem, anoto para a psiquiatra,analizar-me Ando falando até com as estrelas,ai de mim,rio toscamente,isso não tem fim Pois diga-me São apenas estrelas Ou os olhos de um querubim?

domingo, 19 de março de 2017

Espera por mim

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O futuro se esgueira entre meus dedos de frágil cristal. Ele é poeira fina, feita de duna atemporal esvaindo-se em grandes rodeios e ventanias, tenho dele pequenos relances de possuidor desesperado, pois a condição humana me impulsiona feito esporro de máquina a vapor,para pegar cada grão precioso.
Todavia, sei que duna pouco tempo permanece, sei que pessoas pouco tempo se decidem em ficar sentadas sob a mesa de meu café,tomando comigo madrugada e bebericando tênues doses de sentimentos eternos. Sei que o corpo é pó e que a vida é finita em sua materialidade. Sei que meu ardor colapsando sob injúrias e juras é tolice de alguém pequeno demais para compreender a imensidão do além túmulo. Por que o túmulo me espera, e caminho para ele todos os dias,consciente.  E apesar de saber de tudo isto... Sou falha, sou tentadora, sou vaidade e gula, sou um diamante bruto, e peço que me aceite a tempo de um dia_ quem sabe_ ver me lapidado. 

Anjo quebrado

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A linha do maxilar se contrai suavemente e há nos seus olhos certa angústia. Essa angústia de abandono que tanto odeia e esconde, mas que eu posso ver. Odeia ficar sozinho, odeia ficar sozinho. E eu, apesar de amordaçar esse cuidado que ele ainda me inspira, deixo escapar alguma coisa de sentimento forasteiro. Assim, meus olhos o seguem. Procuro um vestígio de resposta, qualquer coisa de definitivo. Um ponto final.

Mas nossa amizade se foi como um gotejamento, como vírgulas. Um dia ele me veio com um afeto estranho, meio vacilante, abrindo algumas portas que eu sequer sabia que havia trancado, até torceu desse trapo velho e sanguinolento, a última confiança que eu podia dar. Deixei-me ouvir e consolar, deixei e deixei. Em um silêncio cumplice compartilhamos a intimidade dos olhos vermelhos. Poucas coisas me causaram tanta inquietude quanto  seus olhos vermelhos, vermelhos de que meu deus? O que ele não tinha?

Mas meus olhos vermelhos eram pálidos, e ele nunca os viu. Pois há coisas mais vermelhas e mais pálidas para se olhar. Há batons, unhas, tênues veias serpenteando pela pele cálida. Há admiração cega, elogios vazios, há pedestais e todo o resto...

Observo, ele não olha pra ninguém . O ego em seu peito, precipitando em sua boca, é suficiente para si. Talvez abaixo dele, da amargura e acidez que me queimara, exista alguém de jeitos mais macios, irreconhecível sombra de beleza, não manchada de indiferença, de mágoa afiada e traição.
Sinto-me febril e deixo-o, dessa vez, ir.

Era desconhecido á mim, o peso com que o rancor afunda. Credito então à ele, a primeira centelha de ódio persistente à macular minha memória. Essa honra é sua, anjo quebrado

sexta-feira, 17 de março de 2017

Personalidade

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Meu café sempre esfria
Prefiro quando queima a garganta
Insensibiza a língua
Marca a carne de ardência

Odeio quando meu café esfria
Odeio essa coisa meio morna
Inenarrável tortura
Que desce dentro de mim arrastando a alma
E regurgitando minha essência
E todos os erros gramaticais

De café frio não gosto
Café frio rejeito
Se não queimar,dispenso.

quinta-feira, 16 de março de 2017

Reflexo

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Eu estou bem, estou bem sem as finezas estúpidas de outrora, estou bem dos fingimentos ensaiados,escancarados para o mundo,estou bem sem essa paródia sórdida de ser perfeito ou algo próximo de sólido na liquidez absurda de ser humano. Estou bem sem os ditos esquisitos, os benditos, os malditos e os que falam dos outros também, estou bem sem minha própria imagem, estou bem sem vocês todos, estou bem sem os fantasmas controlando minhas mãos no meu roer de unhas digital, estou bem sem a pressão necessária,no fim, não tão necessária assim, estou bem, e assim ficarei. Até me achar de ficar bem de novo,e jogar tudo na cara de quem acha que preciso de uma tela negra para refletir minha alma.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Estrada

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Tenho arrepios na nuca e coleciono momentos de quase inconsciência nessas seis longas horas de estrada. Fitando a paisagem rugir feito um leopardo pela janela, correndo de mim desesperado, como se soubesse que sou complicada e que minhas tristezas despejo sobre qualquer coisa ao alcance dos meus olhos. Penso sorrateiramente, culpada, no sorriso constrangido e nos olhos baixos. Nessa imagem que guardei para quando quem você é já não me agradasse mais. Vivo de mentiras. Vazia da angústia que tua menção carrega, me resta inclinar a cabeça sobre o braço, deixar a lágrima molhar a pele em um consolo agourento, que promete em outras ocasiões se repetir. Sou escrava desse impulso forte, devorador de tempo, consumindo o resto do que deveria ser a vida fora a busca por um encontro entre duas pessoas. Sua voz é feito um fantasma barulhento, névoa e bruma, descolorindo o cobre terroso que tua pele refletia sobre o sol. Não és mais quente. Coisa plena é a saudade, trazendo lembranças falsas para quem, já miserável, se agarrada à flashes tortuosos de sonhos e realidades. Um sorriso verdadeiro outro falso, um toque provocador e outro repulsivo, uma moeda de apostas, apostando quem serás para mim daqui para frente, depois da lágrima descer pela mão e pousar, dramática como uma ampulheta da decisão no estofado do carro. A estrada faz essas coisas. A escolha flutua na velocidade, em um instante decido por uma interrogação. E no fim, está tudo em branco, não vejo mais a paisagem, as cores se diluem e, você se dilui nesse peito calado, comprimido, pesado. A vontade súbita de beijar-te e rasgar-te com meus dentes vêm da fúria de não saber, porque a fascinação e a ira vem do mesmo corpo e da mesma ideia. A saudade é um pano no fundo, coisa plena, para o espetáculo de quando te descontruo. Tu também correste de mim, feito leopardo, correste. De mim. São terríveis, as interrogações...

sábado, 11 de março de 2017

Besta-fera

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Tão rente quando navalha, no tênue véu do meu rosto se desfaz a identidade fugaz, fumaça impregnando aos poros, um fantasma de ser imaginado. Incapaz de respirar,fixo o olhar em um ponto etéreo a minha frente, maquinalmente viva, implodindo como uma granada submersa a alta pressão. E eu odeio ver corações se quebrarem, vez após outra, caindo feito cacos a cantarolar no chão, estilhaços de mim e de você. Esta noite a calamidade é crua, suja de um batom velho e escuro, feito mulher experiente, também sei que sou assim, podre de tão maquiada, oleosa de mil perfumes, tão natural quanto brisa no inferno, afetadamente insana. Uma besta-fera.