domingo, 23 de abril de 2017

Momento

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Acostumei-me a deitar a cabeça sobre um ombro imaginário e observar o trânsito e a paisagem se agitarem através do vidro da janela do carro, perguntando-me, fascinada, que se cada pessoa é um universo e se cada lugar tem uma história,quantos indescritíveis romances hão de existir numa simples virada de esquina?

terça-feira, 18 de abril de 2017

Colapso

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Um colapso no tempo, parando, finalmente estático, num parque agitado, numa roda gigante supersônica de mil quilômetros de altura, sinto uma vertigem ao olhar nos olhos dela, quietos sobre a cama,felizes sobre mim, tristes por mim,raivosos contra mim. O tempo para quando olho nos olhos dela, não figurativamente o tempo de fato, para. O que mais é meu tempo senão o relógio rápido daquelas duas pedras castanhas, minhas jóias da alma? Se elas se fixam em mim, o tempo de fato para. O tempo,de fato, para. 
E por um segundo, sinto-me cair da roda gigante, feito águia atingida por um tiro de espingarda, caçada, displicentemente capturada, caindo para ela numa distância infinita até o chão, para o destino de ser a única coisa em movimento no colapso temporal, o destino de ser uma fenda no universo. 
Se algum dia ela desviar o olhar e eu parar de cair, a roda gigante volta a girar, por enquanto, estou caindo por ela,para sempre e sempre e sempre e sempre...

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Confusão

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Guardo as memórias no travesseiro, sufocando as dores de outros tempos, os calos de pés descalços e a petulância dos meus quinze anos... Abraço o travesseiro em busca dela, sou uma latitude equatorial para a saudade. Nessa cidade de poetas fingidos e olhos esbugalhados de tanto horror, minha paz mora no centro... Descanso nas reticências, fecho os olhos nas vírgulas, adormeço no ponto final. O sonho que persegue é um fiapo de precisão, um flash estupendo de coesão na minha confusa mente, doentia, tens de mim a melodia dos calados. Minha mudez momentânea é a profusão de uma virada louca, que em breve se realizará. É mentira a tortura das nuvens antes da tempestade, que se vá tudo, é a liberdade que almejo! E ela eu hei de ter.

sexta-feira, 31 de março de 2017

Criatura

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Orvalho, orvalho nas flores, de uma primavera eterna 
Cheiro de primorosa àrvore, doçura de mil cores num arco-íris 
Sou felicidade caminhante, tentação 
Alma ávida do calor pulsante, de corações roubados 
Pinta-me uma fada, recebe de mim uma risada, um graçejo vitoriano 
Dou-te algumas rosas, pétalas macias feito água
Lava-me de amor e tenha de mim toda paz
Sou para mim e de mim mesma
Ao mesmo tempo que sou parte de todos 
Sou enfim, criatura de deus

domingo, 26 de março de 2017

Estrelas

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Uma luz morta, viajando mortífera pelos anos luz do universo
Chega até mim em desapego dóido, sou mais apenas uma testemunha ocular
E aí, então, são mil estrelas, refletindo as luzes de si mesmas
Rezam, feito jóias baratas, por algum brilho único e real
São meus olhos que dão a elas,a beleza de que se gabam
Os poetas, lúdicos brincantes de um carnaval selvagem
São apenas estrelas... Desmereço, obcecada
Não são os olhos dela...
Não são os olhos dela.

Fecho um dos olhos, dou um peteleco em uma estrela,e ela rola cadente pelo céu crepuscular
Os olhos de minha amada permanecem, não correm disperços assim, sem despedidas deixar
Convenço me enfim, resoluta, da ilusão de óptica, da minha estranha conduta
O mundo de ilusões que crio são viagens apocalípticas no seio das nebulosas
São apenas estrelas... São apenas estrelas.
Ai estrelas,será que apenas eu vos enxergo? Serao meus olhos dotados de algum mal torturante Que se põe a imaginar as coisas quem que estas o sejam? Interrogativa análise,metaliguagem, anoto para a psiquiatra,analizar-me Ando falando até com as estrelas,ai de mim,rio toscamente,isso não tem fim Pois diga-me São apenas estrelas Ou os olhos de um querubim?

domingo, 19 de março de 2017

Espera por mim

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O futuro se esgueira entre meus dedos de frágil cristal. Ele é poeira fina, feita de duna atemporal esvaindo-se em grandes rodeios e ventanias, tenho dele pequenos relances de possuidor desesperado, pois a condição humana me impulsiona feito esporro de máquina a vapor,para pegar cada grão precioso.
Todavia, sei que duna pouco tempo permanece, sei que pessoas pouco tempo se decidem em ficar sentadas sob a mesa de meu café,tomando comigo madrugada e bebericando tênues doses de sentimentos eternos. Sei que o corpo é pó e que a vida é finita em sua materialidade. Sei que meu ardor colapsando sob injúrias e juras é tolice de alguém pequeno demais para compreender a imensidão do além túmulo. Por que o túmulo me espera, e caminho para ele todos os dias,consciente.  E apesar de saber de tudo isto... Sou falha, sou tentadora, sou vaidade e gula, sou um diamante bruto, e peço que me aceite a tempo de um dia_ quem sabe_ ver me lapidado. 

Anjo quebrado

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A linha do maxilar se contrai suavemente e há nos seus olhos certa angústia. Essa angústia de abandono que tanto odeia e esconde, mas que eu posso ver. Odeia ficar sozinho, odeia ficar sozinho. E eu, apesar de amordaçar esse cuidado que ele ainda me inspira, deixo escapar alguma coisa de sentimento forasteiro. Assim, meus olhos o seguem. Procuro um vestígio de resposta, qualquer coisa de definitivo. Um ponto final.

Mas nossa amizade se foi como um gotejamento, como vírgulas. Um dia ele me veio com um afeto estranho, meio vacilante, abrindo algumas portas que eu sequer sabia que havia trancado, até torceu desse trapo velho e sanguinolento, a última confiança que eu podia dar. Deixei-me ouvir e consolar, deixei e deixei. Em um silêncio cumplice compartilhamos a intimidade dos olhos vermelhos. Poucas coisas me causaram tanta inquietude quanto  seus olhos vermelhos, vermelhos de que meu deus? O que ele não tinha?

Mas meus olhos vermelhos eram pálidos, e ele nunca os viu. Pois há coisas mais vermelhas e mais pálidas para se olhar. Há batons, unhas, tênues veias serpenteando pela pele cálida. Há admiração cega, elogios vazios, há pedestais e todo o resto...

Observo, ele não olha pra ninguém . O ego em seu peito, precipitando em sua boca, é suficiente para si. Talvez abaixo dele, da amargura e acidez que me queimara, exista alguém de jeitos mais macios, irreconhecível sombra de beleza, não manchada de indiferença, de mágoa afiada e traição.
Sinto-me febril e deixo-o, dessa vez, ir.

Era desconhecido á mim, o peso com que o rancor afunda. Credito então à ele, a primeira centelha de ódio persistente à macular minha memória. Essa honra é sua, anjo quebrado