sexta-feira, 19 de maio de 2017

Fantasma

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Dissolvida na memória veloz e curta
Dessas minhas jovens íris maculadas
Reside,insubstancial e fosco
Um fantasma
Apático, estranho roedor
Roendo de mim os anos e tecendo comigo
O caminho vil dos covardes

Mãos translúcidas,suaves de uma maciez tóxica
Cândida e impossível perfeição
De uma calamidade crua
Que me afoga em fases da lua
E me ilumina conforme as marés
Cala de mim a vontade, a verdade e sem querer
Cala também qualquer maldade, todo poder
Uma semana,duas,um mês,uma década
Há muito tempo me toca o fantasma

O fantasma eu sou,atrás desse véu
Revelação, ardendo pelos poros em inferno
Sinto uma sussurrante calma no terror de escapar
Meu rosto por tanto escondido
Abre-se numa expressão nua, quer a morte quer descansar
Da sina de ser sempre ser desvisto
Ai como dói levantar

Quando eu era vivo, sem fantasma sem véu ainda
Lembro de um flash desconhecido
Do que é ter sangue nas veias
Daquilo que é dor e daquilo que é medo
Chama me de fantasma
Caminharei entre os vivos
Mal sabem que sou
Menos mortal

O que acontece quando um fantasma se olha no espelho
É um segredo que cabia apenas a mim
Mas agora cabe também a ti
O espelho não reflete
E o fantasma triste,inerte
Sonha em desenhar no reflexo
Um olhar imaginário
É um jeito solitário de se achar quem se é

Enquanto rascunho uma conclusão para esse poema
Busco em minha memória um rosto que se adeque a mim
Ao fantasma que sou caminhante e imortal
E no final do poema no ponto final
Acho-me ,porém
Tu nunca me vês.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Terra do Nunca

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Pegue minha mão, vamos para a terra do nunca. Abra uma das portas encardidas, nesses banheiros sórdidos dos bares, pegue minha mão e voe através da janela. Meus olhos são cristais: límpidos espelhos lilases, te guiando para uma eternidade na cidade insone dos meus braços, oh caminhante confusão, finalmente cessarás de confundir o amor com paixão e a cegueira com a verdade. Tens sorte de me achar, beirando a morte aos desseis anos, de pé em meus saltos altos,cheirando a sua delirante fantasia jovem.
Os demônios vem num frasco de sonhos. E tu me bebes de bom grado. Tu me tocas vívido, me cheiras sem ar. Equilibra-te em mim. A ponta da faca em que piso é sólida somente para pés descalços. E o meu sangra um abundante Nilo celeste.
E é nesse rio que vou te afogar, entre espasmos do teu corpo e entre beijos suplicantes. Nesse canto envenenado te grito um nome estelar e calo tua boca num tocar de língua crua: és um beija flor na minha mão, a falar me em tons gentis as palavras que são guardadas para damas e não para mim. Sou um caco de vidro. Não uma pena. Trate me feito lufada de ar,não feito brisa. Há mais em mim um borralho que uma princesa. Me tenhas como sou:impossível.

domingo, 30 de abril de 2017

Adeus

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Sobre a cama, respirei fundo, escrevendo cada palavra como se tirasse um espinho do peito. Era a última mensagem, de todas as que eu já mandara nos meus cuidados de preocupação, de doçura e de querer bem, e era um pequeno texto tão amargo que cheirava a café velho, esquecido numa garrafa no canto da cozinha. Fora doloroso, cada resposta,cada mentira desmentida feriu como um tapa, senti a mente encher-se de lágrimas, feito um maremoto de vozes entoando um cântico fúnebre. Lá se vai o corpo de uma amizade tão jovem, as senhorinhas lamentam e fofocam a lascívia do golpe final, eu apenas me recolho no meu canto junto ao túmulo, sou o coveiro resignado na sua tarefa diária de enterrar as decepções e aplaudir ainda o amanhecer de um novo dia. Sou esperança nos finais sórdidos. E no meu cemitério não existem flores, apenas a gradual aceitação de que os mortos assim devem permanecer, e que no fim, quem tem ser forte é você para não sucumbir a tentação de ir abraçar os cadáveres. Mesmo que um dia eles tenham dito eu te amo.

domingo, 23 de abril de 2017

Momento

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Acostumei-me a deitar a cabeça sobre um ombro imaginário e observar o trânsito e a paisagem se agitarem através do vidro da janela do carro, perguntando-me, fascinada, que se cada pessoa é um universo e se cada lugar tem uma história,quantos indescritíveis romances hão de existir numa simples virada de esquina?

terça-feira, 18 de abril de 2017

Colapso

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Um colapso no tempo, parando, finalmente estático, num parque agitado, numa roda gigante supersônica de mil quilômetros de altura, sinto uma vertigem ao olhar nos olhos dela, quietos sobre a cama,felizes sobre mim, tristes por mim,raivosos contra mim. O tempo para quando olho nos olhos dela, não figurativamente o tempo de fato, para. O que mais é meu tempo senão o relógio rápido daquelas duas pedras castanhas, minhas jóias da alma? Se elas se fixam em mim, o tempo de fato para. O tempo,de fato, para. 
E por um segundo, sinto-me cair da roda gigante, feito águia atingida por um tiro de espingarda, caçada, displicentemente capturada, caindo para ela numa distância infinita até o chão, para o destino de ser a única coisa em movimento no colapso temporal, o destino de ser uma fenda no universo. 
Se algum dia ela desviar o olhar e eu parar de cair, a roda gigante volta a girar, por enquanto, estou caindo por ela,para sempre e sempre e sempre e sempre...

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Confusão

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Guardo as memórias no travesseiro, sufocando as dores de outros tempos, os calos de pés descalços e a petulância dos meus quinze anos... Abraço o travesseiro em busca dela, sou uma latitude equatorial para a saudade. Nessa cidade de poetas fingidos e olhos esbugalhados de tanto horror, minha paz mora no centro... Descanso nas reticências, fecho os olhos nas vírgulas, adormeço no ponto final. O sonho que persegue é um fiapo de precisão, um flash estupendo de coesão na minha confusa mente, doentia, tens de mim a melodia dos calados. Minha mudez momentânea é a profusão de uma virada louca, que em breve se realizará. É mentira a tortura das nuvens antes da tempestade, que se vá tudo, é a liberdade que almejo! E ela eu hei de ter.

sexta-feira, 31 de março de 2017

Criatura

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Orvalho, orvalho nas flores, de uma primavera eterna 
Cheiro de primorosa àrvore, doçura de mil cores num arco-íris 
Sou felicidade caminhante, tentação 
Alma ávida do calor pulsante, de corações roubados 
Pinta-me uma fada, recebe de mim uma risada, um graçejo vitoriano 
Dou-te algumas rosas, pétalas macias feito água
Lava-me de amor e tenha de mim toda paz
Sou para mim e de mim mesma
Ao mesmo tempo que sou parte de todos 
Sou enfim, criatura de deus