sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Reconhecimento

Tilintando as taças num banquete da morte, eu me sento no alto do rochedo, trajando flutuantes fios de sangue serpenteando de minhas veias. Em meus olhos há apenas a frieza crua de um ódio inabitado, extinto e longínquo feito os deuses das primeiras eras. Sob os meus pés arrastam se filetes de luz, vaga-lumes atraídos pelo meu aroma doce de pecado eterno. Sou um segundo perdido na noite, a musa de um lobo que uiva fascinado, traindo sua amante lunar. Sou uma sombra carmim, pálida pele, cabelos alourados, anjo do crepúsculo a se pronunciar.
Derramo o vinho sobre meu colo, torno me princesa aclamada, saborosa solidão perdida entre o negrume da floresta. Deixo me seduzir pelos vultos ao meu redor, falo sozinha, balanço meus pés delicados a beira do precipício, amo o perigo, quero daqui me jogar. A própria loucura que me envenena me faz respirar. De minhas asas ensanguentadas pinga também o líquido ardente de uma antiga poção do amor, com um beijo mortal selado. Minhas mãos agora alcoólicas pousam sobre a rocha, tomando impulso para um voo que irei alçar. Abaixo de mim estende se uma brutal encosta, onde corvos grasnam a carnificina dos ancestrais suicidas para lá guiados, solitários. Sinto minha força angelical. Este é o momento. Lanço me em direção ao abismo, para nunca mais voltar.

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